O encontro com Nero
Não foram nada
fáceis os primeiros dias. Saímos do vilarejo com nossas novas armas e sob
vários comentários incentivadores dos nossos outros colegas. Aquele lugar era
especial para mim. Eu sempre fui rejeitado nas escolas que estudei, e foi ali
onde eu pude encontrar pessoas como eu. Já estava sentindo falta de toda aquela
agitação. Estávamos indo caminhando em direção a cidade do Rio de Janeiro. A
vista era linda ali, havia um grande campo de girassóis no lado esquerdo, e no
direito os primeiros bairros da cidade começavam a criar forma. Estava Duda e
eu lado a lado, Bocs estava mais a frente conversando com JP. Na verdade eles
estavam discutindo, mesmo nós estando tão longe deles pudemos escutar Bocs
gritando:
---- Eu não
pedi para você vir falar comigo!
- Ótimo, sabia
que você não iria ser corajoso suficiente para encarar a realidade! – respondeu
JP elevando a voz no mesmo nível que Bocs.
---- A
realidade é que você me traiu! Achou que eu não descobriria que você teve um
caso com... – percebi que Bocs não conseguia nem falar o nome daquela mulher.
---- Tive
mesmo! Aquela vadia foi a pior coisa que aconteceu em sua vida!
Bocs estava
com seu arco em punho e já levantava a mão para pegar uma flecha de sua aljava
quando o chão começou a tremer. Instintivamente todos olharam para mim, porque
eu era o líder.
---- Peguem
suas armas! – eu disse. – Duda você tem alguma idéia sobre o que está
acontecendo?
As frágeis
casas ao nosso lado começaram a desmoronar quando Duda se recuperou do susto e
gritou:
---- Vamos
para os girassóis!
Sem pensar
duas vezes nós corremos nessa direção. Como eu era mais rápido, cheguei
primeiro ao campo, seguido de Duda e Bocs. JP era o mais lento da turma e
quando alcançou as primeiras flores o tremor de Terra parou instantaneamente. Eu
e Duda corremos em direção aos dois garotos. Quando estávamos todos reunidos,
Bocs – desconfiado como sempre – perguntou a Duda:
---- Como você
sabia para onde ir?
---- Somos
quatro semideuses andando a céu aberto. Devemos exalar tanto cheiro para os
monstros quanto um ovo podre. O cheiro dos girassóis deve disfarçar esse cheiro
por algum tempo, mas temos que sair daqui.
Bocs, o mais
alto de nós, olhou por cima das flores amarelas e viu muitas pessoas correndo e
gritando para todos os lados quando abaixou, disse:
---- Temos que
arranjar outro jeito de chegar à cidade.
----
Poderíamos amarrar vários girassóis em volta de nossos corpos – eu falei.
---- Ou
poderíamos roubar algum carro – sugeriu JP.
---- Ou
poderíamos ir ali dentro! – disse Duda apontando para um caminhão baú que
passava pela rodovia, enquanto seus olhos se iluminavam.
Bocs pensou um
pouco e fez um gesto de concordância com a cabeça. Seguido de JP. Eu não tinha
escolha, nós não tínhamos escolha. Teríamos de chagar ao Il Magnífico o mais rápido possível, e o único jeito era com aquele
caminhão. Concordei também. Mesmo não sendo o líder, Bocs logo deu as
instruções:
---- Vou
estourar um pneu do caminhão, quando o motorista parar, nós entramos no baú e
esperamos o motorista trocar o pneu furado para seguir viajem. Ok?
Todos fizeram
sinal de aprovação, e quase imediatamente Bocs já atirou uma de suas flechas
normais de madeira no pneu dianteiro do caminhão. Corremos o mais rápido possível
para a traseira do veículo, sem que o motorista nos visse. Quando Duda abriu o
cadeado do baú com sua faca nós entramos.
O cheiro era
ótimo. Nós tivemos MUITA sorte. Aquele era um carregamento de perfumes que ia
direto para a cidade. Por um momento surgiu uma dúvida:
---- Bocs, por
que você não usou umas das flechas especiais de Aristeu?
---- Uma
daquelas poderia explodir o caminhão inteiro – disse ele com um sorriso
maléfico no rosto. Acho que era a primeira vez que o vi sorrir.
Ficamos
conversando ali dentro durante todo o percurso. Descobri que Bocs era do
Paraná, Duda era de Goiás e JP de São Paulo. Também descobri que nem todos ali
haviam tido uma vida tão boa quanto a minha. A viajem demorou muito. Os buracos
na rodovia típicos do Brasil faziam as caixas de perfume balançarem. Duda até
afanou um deles que ela disse que era caríssimo nas lojas. Bocs já estava incrivelmente
insuportável, pois já estava há muitas horas sem sol. JP perdeu a noção do
tempo porque não podia ver o céu. De repente o caminhão parou. Duda rapidamente
abriu a porta e nós saímos sorrateiramente.
Já era noite,
para o espanto de todos. Olhamos ao redor. Prédios e mais prédios nos rodeavam.
Era uma parte da cidade que eu ainda não conhecia, mas JP sabia bem onde
estávamos.
---- Estamos
em Copacabana.
---- Como você
sabe? – disse Duda.
---- Está
escrito ali – disse ele apontando para uma placa de sinalização. – Pensei que
você fosse mais inteligente por ser filha de Atena – disse ele com um tom brincalhão,
deixando Duda muito vermelha.
---- Vamos,
temos que achar esse tal Il Magnífico
– disse Bocs enquanto corria em direção a um guarda que vigiava um
estacionamento ali perto.
---- O que
quatro adolescentes fazem na rua a essa hora da noite? – disse ele meio
constrangido.
---- Não somos
daqui, nós nos perdemos de nossos pais, mas eles estão em um hotel chamado Il Magnífico – disse Duda chorando,
quase convenceu a mim também.
O guarda ficou
espantado. Esse tal hotel deveria ser bem conhecido, mas decorar nomes de
hotéis importantes da cidade nunca me pareceu tão importante. Ele nos estudou
um pouco. Era muito estranho quatro adolescentes tão diferentes estarem com
mochilas enormes (que nós “pegamos emprestados” de uma loja para esconder
nossas armas) e no meio da noite. Mas o nosso amigo ali sabia que apenas os
mais ricos do mundo se hospedavam no Il
Magnífico.
---- Vocês
devem seguir por essa rua por três quadras adiante, e virar à esquerda. Vocês
vão encontrar um hotel enorme, que é o qual vocês estão procurando – disse ele
apontando naquela direção, quando se virou nós já aviamos sumidos na escuridão
da noite.
Fomos para o hotel por uma rua paralela. Nem precisamos aproximar para
ter certeza e que era aquele. Era um prédio enorme, de no mínimo 50 andares.
Toda a estrutura era iluminada por grandes refletores. Sua fachada era cheia de
detalhes. Coqueiros faziam uma espécie de recepção junto com os táxis de luxo
na entrada, um pouco mais ao fundo havia uma fonte de água. Lá no alto havia um
grande letreiro onde estava escrito: Il
Magnífico. Certamente havíamos chegado ao nosso primeiro destino.Capítulo-2 Parte-2
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