Páginas

domingo, 5 de agosto de 2012

Capítulo-2 Parte-1


O encontro com Nero

Não foram nada fáceis os primeiros dias. Saímos do vilarejo com nossas novas armas e sob vários comentários incentivadores dos nossos outros colegas. Aquele lugar era especial para mim. Eu sempre fui rejeitado nas escolas que estudei, e foi ali onde eu pude encontrar pessoas como eu. Já estava sentindo falta de toda aquela agitação. Estávamos indo caminhando em direção a cidade do Rio de Janeiro. A vista era linda ali, havia um grande campo de girassóis no lado esquerdo, e no direito os primeiros bairros da cidade começavam a criar forma. Estava Duda e eu lado a lado, Bocs estava mais a frente conversando com JP. Na verdade eles estavam discutindo, mesmo nós estando tão longe deles pudemos escutar Bocs gritando:
---- Eu não pedi para você vir falar comigo!
- Ótimo, sabia que você não iria ser corajoso suficiente para encarar a realidade! – respondeu JP elevando a voz no mesmo nível que Bocs.
---- A realidade é que você me traiu! Achou que eu não descobriria que você teve um caso com... – percebi que Bocs não conseguia nem falar o nome daquela mulher.
---- Tive mesmo! Aquela vadia foi a pior coisa que aconteceu em sua vida!
Bocs estava com seu arco em punho e já levantava a mão para pegar uma flecha de sua aljava quando o chão começou a tremer. Instintivamente todos olharam para mim, porque eu era o líder.
---- Peguem suas armas! – eu disse. – Duda você tem alguma idéia sobre o que está acontecendo?
As frágeis casas ao nosso lado começaram a desmoronar quando Duda se recuperou do susto e gritou:
---- Vamos para os girassóis!
Sem pensar duas vezes nós corremos nessa direção. Como eu era mais rápido, cheguei primeiro ao campo, seguido de Duda e Bocs. JP era o mais lento da turma e quando alcançou as primeiras flores o tremor de Terra parou instantaneamente. Eu e Duda corremos em direção aos dois garotos. Quando estávamos todos reunidos, Bocs – desconfiado como sempre – perguntou a Duda:
---- Como você sabia para onde ir?
---- Somos quatro semideuses andando a céu aberto. Devemos exalar tanto cheiro para os monstros quanto um ovo podre. O cheiro dos girassóis deve disfarçar esse cheiro por algum tempo, mas temos que sair daqui.
Bocs, o mais alto de nós, olhou por cima das flores amarelas e viu muitas pessoas correndo e gritando para todos os lados quando abaixou, disse:
---- Temos que arranjar outro jeito de chegar à cidade.
---- Poderíamos amarrar vários girassóis em volta de nossos corpos – eu falei.
---- Ou poderíamos roubar algum carro – sugeriu JP.
---- Ou poderíamos ir ali dentro! – disse Duda apontando para um caminhão baú que passava pela rodovia, enquanto seus olhos se iluminavam.
Bocs pensou um pouco e fez um gesto de concordância com a cabeça. Seguido de JP. Eu não tinha escolha, nós não tínhamos escolha. Teríamos de chagar ao Il Magnífico o mais rápido possível, e o único jeito era com aquele caminhão. Concordei também. Mesmo não sendo o líder, Bocs logo deu as instruções:
---- Vou estourar um pneu do caminhão, quando o motorista parar, nós entramos no baú e esperamos o motorista trocar o pneu furado para seguir viajem. Ok?
Todos fizeram sinal de aprovação, e quase imediatamente Bocs já atirou uma de suas flechas normais de madeira no pneu dianteiro do caminhão. Corremos o mais rápido possível para a traseira do veículo, sem que o motorista nos visse. Quando Duda abriu o cadeado do baú com sua faca nós entramos.
O cheiro era ótimo. Nós tivemos MUITA sorte. Aquele era um carregamento de perfumes que ia direto para a cidade. Por um momento surgiu uma dúvida:
---- Bocs, por que você não usou umas das flechas especiais de Aristeu?
---- Uma daquelas poderia explodir o caminhão inteiro – disse ele com um sorriso maléfico no rosto. Acho que era a primeira vez que o vi sorrir.
Ficamos conversando ali dentro durante todo o percurso. Descobri que Bocs era do Paraná, Duda era de Goiás e JP de São Paulo. Também descobri que nem todos ali haviam tido uma vida tão boa quanto a minha. A viajem demorou muito. Os buracos na rodovia típicos do Brasil faziam as caixas de perfume balançarem. Duda até afanou um deles que ela disse que era caríssimo nas lojas. Bocs já estava incrivelmente insuportável, pois já estava há muitas horas sem sol. JP perdeu a noção do tempo porque não podia ver o céu. De repente o caminhão parou. Duda rapidamente abriu a porta e nós saímos sorrateiramente.
Já era noite, para o espanto de todos. Olhamos ao redor. Prédios e mais prédios nos rodeavam. Era uma parte da cidade que eu ainda não conhecia, mas JP sabia bem onde estávamos.
---- Estamos em Copacabana.
---- Como você sabe? – disse Duda.
---- Está escrito ali – disse ele apontando para uma placa de sinalização. – Pensei que você fosse mais inteligente por ser filha de Atena – disse ele com um tom brincalhão, deixando Duda muito vermelha.
---- Vamos, temos que achar esse tal Il Magnífico – disse Bocs enquanto corria em direção a um guarda que vigiava um estacionamento ali perto.
---- O que quatro adolescentes fazem na rua a essa hora da noite? – disse ele meio constrangido.
---- Não somos daqui, nós nos perdemos de nossos pais, mas eles estão em um hotel chamado Il Magnífico – disse Duda chorando, quase convenceu a mim também.
O guarda ficou espantado. Esse tal hotel deveria ser bem conhecido, mas decorar nomes de hotéis importantes da cidade nunca me pareceu tão importante. Ele nos estudou um pouco. Era muito estranho quatro adolescentes tão diferentes estarem com mochilas enormes (que nós “pegamos emprestados” de uma loja para esconder nossas armas) e no meio da noite. Mas o nosso amigo ali sabia que apenas os mais ricos do mundo se hospedavam no Il Magnífico.
---- Vocês devem seguir por essa rua por três quadras adiante, e virar à esquerda. Vocês vão encontrar um hotel enorme, que é o qual vocês estão procurando – disse ele apontando naquela direção, quando se virou nós já aviamos sumidos na escuridão da noite.
Fomos para o hotel por uma rua paralela. Nem precisamos aproximar para ter certeza e que era aquele. Era um prédio enorme, de no mínimo 50 andares. Toda a estrutura era iluminada por grandes refletores. Sua fachada era cheia de detalhes. Coqueiros faziam uma espécie de recepção junto com os táxis de luxo na entrada, um pouco mais ao fundo havia uma fonte de água. Lá no alto havia um grande letreiro onde estava escrito: Il Magnífico. Certamente havíamos chegado ao nosso primeiro destino.

Capítulo-2 Parte-2

Nenhum comentário:

Postar um comentário